terça-feira, 21 de novembro de 2017

O guardador de livros

Era um homem que vivia só e não gostava de emprestar livros, ou melhor, nunca os emprestava. E desde muito novo que os comprava. Mesmo quando o dinheiro era pouco e o desejo de ler era muito. Eram criteriosamente escolhidos, lidos e organizados nas estantes. Que existiam na sala, no quarto e se estendiam pelas paredes do corredor.
Quando queria, encontrava-os facilmente, ou para falar deles em encontros literários ou em pequenos grupos que o convidavam para falar de um livro ou do papel da leitura ou simplesmente para os reler. Dificilmente deixava que o interlocutor manuseasse os livros que eram seus. Se alguns dados fossem necessários, era ele que os procurava e ditava-os ao interessado. Se alguém lhe pedisse para fotografar a capa, ou algum elemento do interior do livro, só autorizava se não fosse com flash.
E assim foi ao longo de muitos e muitos anos. 
Às vezes convidava uns amigos para a sua casa. Mais amigos dos livros, por assim dizer.
Nunca os deixava sós junto das suas preciosidades, para se certificar que ninguém lhes mexia ou as tirava do lugar.
Ainda não disse, mas o guardador de livros há muito que tinha redução no bilhete de transportes públicos. Um dia, aconteceu o que cada um tem mais certo.
O apartamento foi vendido, os livros colocados em caixotes e alguns foram para reciclar. Como eram muito pesadas, houve caixas que cederam no transporte. Alguns livros caíram na rua encharcada e ninguém os quis.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Um parque para todos - até quando?

Hampstead Heath, em Londres, num soalheiro - ainda que frio - domingo de manhã.

domingo, 19 de novembro de 2017

Um livro interessante


Disse muitas vezes aos meus alunos que não utilizassem o adjetivo "interessante" e, apesar disso, usei-o no título. Foi o que me ocorreu para este livro de contos - histórias curtas que relatam vivências da autora, como é dito em textos preliminares.
Gosto do estilo: frases curtas, objetividade na narração dos factos, às vezes aparentemente pequeninos como são os dos comuns mortais; outros de grande complexidade, tal como são também muitos dos comuns mortais.
A autora, nascida no Alasca, em 1936, morreu na Califórnia, em 2004, tendo deixado dezenas de contos escritos. Este livro é uma coletãnea dos considerados melhores.
Comecei a ler e, se pudesse, não parava durante horas seguidas.
As histórias abordam temas ligados às profissões que a autora teve para sobreviver, relações familiares tempestuosas, casamentos falhados, mas também uma adesão sem reservas à vida, mesmo na profundidade dos mares.
O título da obra é de um dos contos.
Vale a pena ler. Tem vivacidade, fala do mundo, nem sempre cor-de-rosa, mas as cores da natureza humana nem sempre o são. E isso é interessante. Muito.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Abbey Road e a imagem que ficou


Algumas pessoas atravessam a passadeira com o mesmo movimento de braços que os Beatles, o que faz do local - já bonito em si - um lugar de observação e divertimento. E talvez algumas das músicas ainda andem no ar ou na memória.

Curioso!

Já estive várias vezes em Abbey Road e, curioso, nunca atravessei a mítica passadeira para peões, eternizada por um álbum dos Beatles. E, curioso também, passam lá diferentes gerações e não apenas as que mais os ouviam e dançavam. A avaliar pelas fotografias que são tiradas por pessoas de todos os continentes, parecem vir de propósito àquele local como se vai a outro sítio onde se sente mais vivamente a presença de quem lá esteve ou viveu.
Vêm, não sei se por nostalgia, se por amor à música que engloba o mundo e a vida, se por desejo de transpor uma passadeira de fama nem que seja por segundos. E que por sinal já está um pouco gasta.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Caído no chão

Ontem, um homem velho caiu junto à porta de um grande supermercado. Ia só.
Era muito alto, forte e usava óculos. Feriu-se na testa, donde escorria algum sangue, mas sorriu por não ter partido os óculos.
Foi difícil levantá-lo porque era muito pesado. Um casal aproximou-se logo e mais duas pessoas que passaram depois da queda ajudaram a levantá-lo. Quando se viu de pé, o homem agradeceu e disse ter escorregado nas folhas húmidas do chão.
Afinal, já não ia ao supermercado.
Ainda era um homem bonito. 
Não sei se a sua intenção era ter companhia enquanto bebia o café em copo grande que era oferecido a todos os clientes com cartão.
Voltou para o metro e um homem indiano disse que o levava até à estação.

domingo, 12 de novembro de 2017

Sharing the wonderful world

Namíbia
Palau

Obrigada, F. e M. J., pelas fotografias, tiradas na última semana, e por poder partilhá-las aqui. De facto, existem, às vezes perto, outras vezes longe de nós, lugares de incalculável beleza, como estes - o primeiro, na África austral, junto ao Atlântico; o segundo, um pequeno país insular no Pacífico.