sábado, 30 de junho de 2012

A prova


Sábado à tarde. Numa das ruas perpendiculares à Ribeira do Porto, há uma exposição de pintura. Entramos.
Para além dos quadros que podem ser admirados, há também prova de um vinho do Douro. As garrafas e os copos estão dispostos sobre um  balcão. Aceitamos a oferta.
Do lado de dentro, está o pintor – um homem que parece reservado e preferir o silêncio doméstico.
Do lado de fora, a mulher dirige-se às pessoas que entram, mostrando à vontade, convicção e simpatia. Com entusiasmo, tenta vender o vinho e mostrar os quadros produzidos pelo marido.
Enquanto provamos o vinho, falamos com o pintor – um professor de Educação Visual já reformado.
Fala como que a pedir licença, envolvendo as palavras em sorrisos.
Diz  que a exposição dos quadros foi uma prenda da mulher quando fez 65 anos.
Quando saímos, felicitamos os dois pela prova... de amor.

Os Jardins de Sophia (de Mello Breyner Andresen)


Em bela e luminosa manhã de sábado, um grupo de amigos (e amigos da escrita e da leitura) visitou o Jardim Botânico, 
no Campo Alegre, no Porto. 
A quinta pertenceu ao avô de Sophia. Sobretudo em criança, a poeta brincava nestes espaços que, mais tarde, viriam a entrar em muitas das suas histórias: O rapaz de bronze, Noite de Natal e muitos mais.
Para além das inúmeras variedades de plantas, dos espaços (quase) míticos, da beleza florida, existe uma cafetaria com mesas voltadas para um dos jardins (construído à imagem de uma das carpetes que existia na casa). 
Está aberto das 10 h às 18h. 
Um belíssimo espaço para ler. 
Ou percorrer alguns dos caminhos de Sophia.
E por que não apenas olhar?








Porto (rua das Flores), em tarde doce de sábado


O olhar também é ponte



sexta-feira, 29 de junho de 2012

A bicicleta



O que mais lhe custava era interromper os passeios quase diários estrada fora. Durante algum tempo, não poderia percorrer  os habituais quilómetros de bicicleta, depois de um dia de trabalho ou ao fim de semana.
Sentir o vento no rosto, a física agilidade feliz aos sessenta anos,  o bem humorado convívio com os colegas do grupo de ciclistas.. Dava-lhe tanto prazer andar de bicicleta que nunca tinha pensado na possibilidade de deixar de o fazer.

E disse com doçura meneando a voz e a cabeça:
Quando fiquei doente, pensei: ai que não vou poder andar mais de bicicleta. É que não imaginas como me sinto bem quando saio para dar um passeio de bicicleta. Acho que nem em criança conheci um prazer assim. A vida deu-me coisas muito boas, mas a bicicleta é especial. Ela leva-me onde quero sem nada exigir em troca. Sem ter de marcar horários de partida ou de chegada. Faz parte de mim. Sem ela, os meus dias eram vazios e parados.

Já sei que me vais dizer: claro que em breve vais retomar os teus passeios na tua querida bicicleta.

E assim foi.
Não precisava de palavras de circunstância, mas de acreditar que a bicicleta continuava, em casa, à sua espera.

A beleza próxima dos girassóis


Luzes de S. Pedro, na Afurada


quinta-feira, 28 de junho de 2012




Afinal, ontem foi dia E(spanha)!



 Portugal podia ser um pouco  mais feliz!
 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O pai de Andi



Imagem da net

Não era normal! Os três amigos de Andi tinham pais famosos.
O pai de Alexandre era cirurgião. Um daqueles médicos a quem as pessoas ricas e importantes recorrem para tirar o apêndice.
O pai de Rafael tocava violino. Não apenas por prazer. Dava concertos pelo mundo inteiro e era sobejamente conhecido.
O pai de Gino era um realizador de cinema. Diz aos atores o que eles têm de fazer, foi como Gino, com certo orgulho, explicou a profissão do pai.
O pai de Andi era vendedor numa loja de roupa para homem. Um pouco baixo, usava óculos dourados e não era nada conhecido.
Andi só o via ao fim de semana, porque os pais tinham-se separado. Quando os colegas falavam dos pais, Andi ficava calado. O que é que ele havia de dizer? Na passada terça-feira, o meu pai vendeu um fato de flanela cinzenta?
Nas férias grandes, Alexandre foi para África, porque o pai queria fotografar leões. Rafael foi para Nova Iorque, onde o pai ia dar um concerto. E Gino foi para a Sérvia, onde o pai estava a rodar um filme.
O pai de Andi queria ir para a Toscânia. Pela sua bela paisagem e porque gostava de visitar igrejas antigas. Andi não tinha bem a certeza se queria ir, mas estava combinado passarem juntos umas férias por ano.
Por isso, Andi foi com o pai para Itália. Para dizer a verdade, até gostou bastante. Ficaram numa terrinha entre vinhas, davam passeios e visitavam igrejas antigas, mas não em demasia.
Certo dia, que seria diferente dos outros, passeavam pelo mercado de uma pequena aldeia. Compraram tomates e alhos para o molho do esparguete, e ainda pêssegos e uvas para a sobremesa. Num pequeno bar, o pai de Andi tomou café e Andi bebeu um sumo de laranja, que em Itália se diz “aranciata”. Dirigiram-se depois, devagar, para o local onde o carro ficara estacionado.
Andi foi o primeiro a ver os pássaros. Parou, horrorizado. Numa parede batida pelo sol estavam dependuradas cerca de vinte minúsculas gaiolas, cada uma com um pássaro fechado lá dentro. Pardais, tentilhões, um melro. Num desespero evidente, arremessavam-se para cima e para baixo contra as grades.
— Que maldade! — exclamou Andi.
O pai de Andi olhou pensativamente e não proferiu palavra.
De resto, mais ninguém parecia incomodar-se com os pássaros encarcerados. As pessoas passavam, falavam, riam, e não prestavam a mínima atenção àquele arremeter e piar de desespero.
O pai de Andi aproximou-se de uma gaiola. O pardal, prisioneiro e em pânico, tentava bater as asas, mas a gaiola era tão pequena que as asas embatiam contra as grades de madeira. Num gesto rápido e resoluto, o pai de Andi abriu a porta da gaiola. Teve de retirar primeiro o recipiente da água e só depois é que pôde abrir a porta de arame. O pardal mais parecia dar cambalhotas do que voar. Pousou por um instante na rua, atordoado, mas depois voou e desapareceu. O pai de Andi abriu todas as gaiolas. Uma por uma.
— Estão a olhar para nós — disse Andi. — Despacha-te!
Mas só quando abriu a última gaiola é que o pai pegou no saco de papel que tinha pousado no chão e deu a mão a Andi.
— Não vão deixar-nos passar — sussurrou Andi, com medo.
Um pouco mais à frente, havia pessoas paradas na rua, que falavam em voz baixa umas com as outras e olhavam para eles com um ar severo.
Agora vamos precisar do Super-Homem, pensou Andi, deitando um olhar de soslaio ao pai. Que esquisito! Teria o pai crescido em tão pouco tempo? Parecia muito maior do que de costume, muito decidido. E fazia cá uma cara… Exatamente como o Super-Homem, antes de um duelo de vida ou de morte.
Contrariadas, mas sem nada fazerem, as pessoas da rua afastaram-se, deixando o caminho livre a Andi e ao pai. Quando os dois dobraram a esquina, estugaram o passo e, em poucas passadas, chegaram ao carro. Andi voltou a olhar para o pai para se certificar. Será que alguém na idade dele pode ainda crescer? E tão de repente? Deve ter sido uma ilusão!
Deixaram a pequena aldeia para trás, mas nenhum dos dois falava. Andi olhou mais do que uma vez discretamente pelo espelho. Ninguém a persegui-los! À sua frente, estendiam-se montes raiados de cor-de-rosa, violeta e azul-claro. Ciprestes escuros erguiam-se contra o azul leitoso de um céu de verão. Os dois continuavam ainda em silêncio. Mais tarde, sentaram-se debaixo de uma oliveira, a comer pêssegos sumarentos. Sobre as suas cabeças, pousado num ramo coberto de folhas prateadas, cantava um pássaro.
— Este pertence ao teu grupo de admiradores! — disse Andi ao pai.
Como está ansioso por ouvir o que Alexandre, Rafael e Gino vão dizer!
Edith Schreiber-Wicker
Brigitte Meissel; Wilhelm Meissel (org.)
Fernweh
Wien, Herder Verlag, 1980
(Tradução e adaptação)
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Tomara que fosse Dia P



Hoje será Dia P(ortugal) 
ou
Dia E(spanha)?



Tomara que fosse Dia P(ortugal)!


 

terça-feira, 26 de junho de 2012

(Em dia de forte calor, vindo do norte de África)

 Tahar Ben Jelloun
Minha pátria é um rosto
um luar essencial
uma fonte de manancial vivo
É uma mão emocionada que guarda o crepúsculo
para pousar sobre os meus ombros
É uma voz de soluço e de riso
um murmúrio para os lábios que tremem
O único horizonte de minha pátria
é uma ternura contida
nos olhos negros
uma lágrima de luz sobre os cílios
É um corpo de tormentos, precioso
como um tufo de raízes
vizinho da terra quente
É um poema
gerado pela ausência
um país por nascer
à margem do tempo e do exílio
depois de um sono profundo.

Tahar ben Jelloun
(nascido em Marrocos, 1944)

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Emel Mathlouthi

Emel Mathlouthi - tunisina - Uma voz da "Primavera Árabe"

Espanha é grande

Rosalia de Castro
Poeta
(Santiago de Compostela) 

por
Sofia Gandarias
Pintora
(País Basco)

Bem sei que não há nada de
Novo sob o céu,
Que antes outros pensaram
As cousas que ora eu penso.

Bem, para que escrevo?
Bem, porque somos assim:
Relógios que repetem
Eternamente o mesmo.

Rosalia de Castro

É bom quando as conversas são coloridas como as cerejas


domingo, 24 de junho de 2012

Claridade(s)







"Noite de silêncio"

Numa curta viagem de carro, com o rádio ligado, oiço Ana Moura. A fadista canta "Noite de silêncio", com a sua voz quente e rouca.

Em casa, telefono a uma amiga: não responde. Silêncio.

Telefono a uma filha: não atende. Silêncio.

Enquanto janto, vejo e oiço, na TVI, o comentário semanal de MRS. Muitas vezes discordo dele, mas neste assunto não:
Parece ter havido fraude nos exames de 12º ano de Português (alguns alunos terão tido acesso à prova, antes do dia em que foi realizada). E houve e há um grande silêncio sobre o assunto. 

E haverá, com certeza, também quando for anunciado - como tantas vezes acontece - que nada se provou.

E o país continua no(s) seu(s) silêncio(s). E as pessoas guardam o seu(s) silêncio(s). 

E eu também.

Será isto o fado da «noite do silêncio»?


Felizmente há janelas abertas

Com tanto trabalho, nem tinha reparado que o ibisco estava florido. Vi-o, por acaso, da janela.

O trabalho não devia impedir que se olhassem as flores.

Mesmo assim, as flores desabrocham. Com o tempo e no tempo certos.

E nunca ninguém disse que eram sábias as flores.

sábado, 23 de junho de 2012

Prendinha barata para um jantar de S. João

Sardinhas, carvão, cerveja; desculpe, estou à frente...


Manhã de sábado - véspera de S. João. Muita gente às compras numa grande superfície Filas grandes. 
Uma menina obesa tem a mesma expressão carregada da mãe. 
Uma mulher diz ao homem que ponha a cerveja preta no balcão da caixa. 
Um menino chora e a mãe fala mais alto. O menino grita. A mãe diz que não dá o ovo Kinder.
Uma outra mulher aproveita um espaço livre e mete-se na fila. Outra mulher diz que tem de esperar pela vez dela. A primeira fica a criticar a segunda. A segunda explica que não tinha reparado e que a primeira deve andar chateada por causa da crise. 
O rapaz da caixa abre os sacos de plástico com gestos rápidos. Não se esquece de dizer bom dia a cada cliente. Mostra boa cara, porque pode haver queixas e ainda fica com a festa estragada.
Nos carrinhos, passeiam batatas, pimentos, tomates. E sardinhas. E febras. E broa. E vinho. E carvão. Se calhar menos quantidade do que no ano passado. E ao preço a que está a sardinha. Já viste(s)?
Ontem liguei-te não sei quantas vezes. Fogo! Nunca ouves. beijinhos. 'Ta tudo bem? Xau. beijinhos pra todos. Xau...
Chego ao carro. Abro a mala. Que cheirinho a manjerico. É S. João, pois então!

HISTÓRIA DO SR. MAR

Turner
Deixa contar...

Era uma vez
O senhor Mar
Com uma onda...
Com muita onda...
E depois?
E depois...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
E depois...
A menina adormeceu
Nos braços da sua Mãe... 

Matilde Rosa Araújo, O Livro da Tila

                                                                                                            Renoir