terça-feira, 30 de dezembro de 2014

VIVER É ARRISCAR-SE


Rir é arriscar-se
a parecer doido...
Chorar é arriscar-se
a parecer sentimental.
Estender a mão é arriscar-se
a comprometer-se.
Mostrar os seus sentimentos
é arriscar-se a expor-se
Dar a conhecer as suas ideias,
os seus sonhos,
é arriscar-se a ser rejeitado.
Amar é arriscar-se a não ser retribuído no amor.
Viver é arriscar-se a morrer.
Esperar é arriscar-se a desesperar.
Tentar é arriscar-se a falhar...
Mas devemos arriscar!
O maior perigo na vida está
em não arriscar.

Aquele que não arrisca nada...
Não faz nada...
Não tem nada..

Rudyard Kipling

Uma amiga enviou este poema aos seus amigos.
Acrescentou:
"Um 2015 em que arriscar seja o mote!"
Belíssima mensagem/vontade para o Novo Ano,
 acrescento eu agora!

Procura-se cinema sem pipocas

Confesso que não gosto de ouvir roer, isto é, triturar a comida. Tenho, porém, de admitir que, naturalmente, também cause esses incómodos.

 Das últimas vezes que fui ao cinema, atrás de mim, havia roedores de baldes de pipocas. A minha atenção fica dispersa com os ruídos das mãos no balde em busca dos mornos milhos moles e depois a trituração dental. A avaliar pelos decibéis, os roedores deviam fazê-lo de boca aberta e, por isso, nada discretamente.
Brrrr... apetecia-me voltar-me para trás e dizer que, pelo menos, abrandassem o ritmo do atirar para a boca o conteúdo do balde. Por outro lado, ia pensando: aguenta, aguenta, é da maneira que o esvaziamento do balde é mais rápido.

Cá para mim, devia haver uma zona para quem comesse pipocas e outra para os não consumidores; tipo zona de fumadores e de não fumadores. Os funcionários que, logo depois do filme, se apressam, com baldes, vassouras e esfregonas, a limpar a pipocada que fica no chão também agradeceriam porque a zona de limpeza ficava mais restrita.

Daria uma fotografia curiosa: toda a gente de balde na mão com os dedos a depenicar os grãozinhos lambuzões e a levá-los à boca devoradora, em gestos repetidos. O pior seria o concentrado ruído produzido. Muitas cenas se perderiam com semelhante cena. Bem, o melhor é continuar a distribuir o mal pelas aldeias, ou seja, os baldes de pipocas por diferentes cadeiras.

Não gosto nada de ser fundamentalista, mas apetecia-me dizer: abaixo as pipocas roídas com ruído no cinema!
É por isso que tenho saudades de cinemas como o Pedro Cem, das pequenas salas do Cidade do Porto, do cinema Nun'Álvares...

Se conhecerem algum, em funcionamento, no Porto, digam(-me), por favor.
Garanto que não haverá prémios e, muito menos, a oferta de um balde de pipocas!

domingo, 28 de dezembro de 2014

Olhando a ponte D. Luís



Ao sol de dezembro

Entre Mindelo e Árvore - Reserva ornitológica desde os anos 50 do século XX

Cores breves

O dia seguinte
Conheci uma senhora que em todos os Natais oferecia rendas feitas por ela: a grande parte de biltros que trabalhava com gostosa destreza.
A família e os amigos mais próximos esperavam a prenda que vinha sempre de suas mãos. As embalagens eram sacos e papéis dos anos anteriores que a velha senhora guardava num cesto vermelho com a imagem de um meigo Pai-Natal.
Quando, na véspera do Natal, o cesto ficava vazio, logo começava outros trabalhos para o ano seguinte. 
Há alguns Natais que o ritual não se repete, mas os seus presentes tornam mais nítidas as cores do passado.

As estrelas
Há um par de anos que ela guardava estrelas feitas de cartolina. Sobrepostas e de cores claras e semelhantes, em cada Natal davam nova luz à entrada da casa. Reviviam numa árvore colhida no mato, de entre os arbustos secos. 
Este ano, às estrelas ela juntou umas luzinhas pequenas, aquecendo o frio cinzento do inverno.
Muito perto, o rio passava e, mesmo sem estrelas no céu, parecia mais tranquilo.

A casa
Há casas assim. Que unem. Que chamam. Que aquecem. Que contam histórias. Que trazem lembranças. Que convocam sorridentes antes e depois.
A casa era grande. Exigente de muitos cuidados que nem sempre podia receber. As paredes brancas iam-se tornando pardas e húmidas. 
A passagem do tempo é frenética; os afazeres nascem volumosos; a balança dos gastos e dos ganhos inclina-se para o primeiro prato...
Mas, mesmo assim, a casa continua a chamar, sobretudo pelo Natal. 
 Há casas assim. Que unem...

A história
Ele escreveu a história. Ela leu-a e gostou, reconhecendo a sua capacidade para a escrita. Como gostou, ela deu-a a ler a uma amiga, que vivia no país cuja língua ele escolhera para escrever a história, e que tinha vindo passar o Natal com a família.
A amiga também gostou e disse quase ter chorado no fim.
Esta amiga disse à outra amiga que tinha gostado da história. Não sei se lhe disse que quase tinha chorado no fim.
Mas ele quase chorou ao saber que o seu trabalho era apreciado. E que teria leitores. Nem que fossem poucos. 
E sobretudo porque o Amor e a escrita o conduziam a um mundo inesgotável de cores também traduzidas por palavras.




NATAL


Imagem e poema enviados por VO. Obrigada e Feliz Tempo de Natal!
NATAL 2014

A noite na Nigéria é de Natal?
Na Síria? Na Ucrânia? No Iraque?
Natal, onde o presépio está a saque
e um clarão que brilha é fatal?

E na Guiné a música é qual?
E na Libéria qual o seu sotaque?
Por peste, por cilada, por ataque,
Dezembro pode ser o mês final.

Nascer, vai nascer, em qualquer canto,
na mansão, no palácio, no casebre,
no riso dos salões e até no pranto

do corpo na barraca a arder em febre.
Nascer, vai nascer, por seu quebranto,
em Belém, por que o fado não se quebre.


  Carlos André

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Isto não é letra de canção!



AI que saudades eu tinha
da minha rica Marianinha
Que no meu blogue vive
Mal sabe que a sua autora
sem escrever não sobrevive
mesmo não sendo escritora

Ai que saudades sentia
De escrever pequenas histórias
Que renascem de memórias
Ou que do presente se vestem
Que  captam o nosso olhar
Ficando sem querer ficar
E de preconceitos se despem

Há uns dias que cá não vinha
porque o computador pifou
No meio de reuniões
E de urgentes avaliações
A net se evaporou
Não sei se disse palavrões
No meio das tentativas
Com ideias aos trambolhões

Mas cá estou eu outra vez
Após quase vinte dias
Que fugiram como enguias
Com tanta coisa para fazer
Mas como é bom poder dizer
Boas Festas e Bom Ano
Sem prejuízo nem dano
Fazendo o Bem que se quer


O Natal...


O Natal não é ornamento: é fermento
É um impulso divino que irrompe pelo interior da história
Uma expectativa de semente lançada
Um alvoroço que nos acorda 
para a dicção surpreendente que Deus faz
da nossa humanidade

O Natal não é ornamento: é fermento
Dentro de nós recria, amplia, expande

O Natal não se confunde com o tráfico sonolento dos símbolos
nem se deixa aprisionar ao consumismo sonoro de ocasião
A simplicidade que nos propõe
não é o simplismo ágil das frases-feitas
Os gestos que melhor o desenham
não são os da coreografia previsível das convenções

O Natal não é ornamento: é movimento
Teremos sempre de caminhar para o encontrar!
Entre a noite e o dia
Entre a tarefa e o dom
Entre o nosso conhecimento e o nosso desejo
Entre a palavra e o silêncio que buscamos
Uma estrela nos guiará 

José Tolentino Mendonça, O Natal não é ornamento


Enviado pela IA no seu "Postal de Natal"
OBRIGADA. BOAS FESTAS!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Quando pego num cesto de adjetivos...

Quando pego num cesto de adjetivos escolho
os maiores, que são os superlativos; e deles ainda
o maior, que é o aumentativo. Depois, começo
a descascá-lo com a faca do advérbio, até ele
ficar restritivo, e caber na frase, onde se cola
ao substantivo para lhe dar um caráter notável,
a distingui-lo de todos os outros que não passam
de comuns e gerais. Gosto destes adjetivos
que quase passam por substantivos, e se
passeiam por entre os nomes como se eles
precisassem deles. São os adjetivos certos
porque não dão nem tiram nada ao substantivo,
nem aspiram a ser explicativos de nada, como
se já soubéssemos tudo sobre a coisa. Porém,
se cortarmos o adjectivo, e o substantivo ficar
tão simples, que cai desamparado, como
o pobre a quem roubam as muletas, logo
digo: «Oh, pobre homem!» e o homem corrige:
«Oh homem pobre!» e fico sem saber qual
dos dois é ele, enquanto não volto a meter
tudo no cesto, e faço do homem um simples
substantivo, coberto com o substantivo simples.

 In Nuno Júdice, A Matéria do Poema, Lisboa, Dom Quixore, 2008

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

domingo, 30 de novembro de 2014

Rua(s) de refúgio



Matisse


Era quase Natal. Dezembro ia chuvoso e frio. O vento empurrava folhas avermelhadas por ruas húmidas da cidade. Na montanha, não muito distante, os dias passavam brancos e gelados.
A Rua do Refúgio – designação que se devia a um antigo canil – estava deserta e os portões de ferro permaneciam fechados. O silêncio era tanto que, mal passava um gato, logo se ouvia e o latir de um cão lembrava um terramoto.
As camélias saltavam dos muros, como luzinhas coloridas em árvores de Natal.
Num dos jardins, vivia um ouriço-cacheiro. Arrastando-se, pachorrento, pisava as folhas que faziam crac-crac. O bicho tinha liberdade, tempo e espaço para passear nas árvores ou no terreno musgoso. Os picos, que faziam parte da sua natureza, alisavam os percursos.
Diana, uma menina de olhos meigos e azuis, morava nessa rua. Andava pensativa e triste, porque os pais pouco falavam e não a deixavam brincar fora de casa. Nem sequer no jardim. Corria perigos - diziam. Diana olhava-os boquiaberta.
Punha-se, então, a ler, a estudar, a jogar computador, a ver televisão… Também enviava sms. Muitos.
Um dia, Diana descobriu que era bom olhar vagarosamente pela janela do quarto, donde podia observar os montes; os quintais; os jardins; a chuva a cair; os gatos enroscados ao sol, ou a correr ou a trepar aos muros; o vento a bater na portada solta; um esquilo fugitivo; uma mulher passando apressada; um homem velho manquejando; um par de namorados em contínuos e desejados abraços...
Começou a desenhar e a escrever pequenos textos.
Era quase Natal e as casas da rua do Refúgio pareciam brinquedos gigantes sem ninguém dentro para brincar. Apenas silêncio, plantas e bichos. Descobria a rua despida como troncos de magnólias no Inverno e recordava o nome de flores, árvores e arbustos que o avô lhe ensinara, quando era mais pequena.
Diana olhava as montanhas ao longe que pareciam espelhos com claros reflexos. A menina contemplava-as e lembrava-se dos distantes e solitários abetos rendilhados por flocos de neve; do frio seco no rosto de quem passava; da casinha pequena, com uma lareira e uma janela e uma mesa tão boa para ler ou escrever histórias vividas ou imaginadas; o cão Dunas, afável e fiel; pessoas que olhavam os outros com tempo e atenção…
Apetecia-lhe ir até lá, mas as amigas estavam de férias com os avós; o pai, quando falava, repetia que tinha muito trabalho e pouco tempo; a mãe, quando respondia, queixava-se de cansaço e solidão.
Numa tarde de sábado, Diana foi com a mãe ao Centro Comercial das Buganvílias. De mãos dadas, caminhando sorridentes, a menina reparou que a mãe era muito bonita. Quando escrevesse uma história, ela seria uma fada.
Junto às lojas, a mãe e as amigas começaram logo a falar, ruidosamente, dos presentes, das compras já feitas, das promoções na loja dos perfumes, dos novos modelos de botas, dos vestidos brilhantes para o Ano Novo…
Regressando à rua do Refúgio, Diana e a mãe repararam que o portão de casa estava aberto. Nunca o tinha visto assim escancarado.

Entraram em casa devagar, olhando para todos os lados, com algum receio.
Teria alguém entrado em casa na sua ausência? E o pai, onde estaria? Procuraram um bilhete, uma mensagem de telemóvel… E nada nem ninguém encontraram. Diana correu até à janela. A rua, como quase sempre, estava deserta. Na casa em frente, o esquilo trepava lesto no cedro alto e largo. Perto, serpenteava, por entre as folhas moídas, o roliço ouriço-cacheiro.
Foi quando o telemóvel tocou. Era o pai.
- Pai, onde estás? Onde foste? Por que deixaste o portão aberto? E não és tu que me recomendas sempre muito cuidado?
O pai, do outro lado, recomendou-lhe que falasse devagar e fizesse uma pergunta de cada vez.
Diana assim fez. E o pai respondeu-lhe que tinha ido à casinha da montanha porque precisava de estar só. (O pai sempre dizia que morava na rua do Refúgio, mas o refúgio só o encontrava na montanha).
A necessidade era tanta de se evadir que se tinha esquecido de fechar o portão. Andava há muito com uma história a bailar-lhe na cabeça. Queria escrevê-la e partiu. Não andava com paciência.
- Diana, a história que escrevi é a tua prenda de Natal. Venham cá ter amanhã. Podemos lê-la à lareira. A mãe prefere ficar aí?
Diana não sabia bem o que fazer. Mais uma vez estava dividida entre pais divididos. Sentindo um turbilhão, Diana insistiu com a mãe para irem ter com o pai à casinha da montanha. A mãe respondeu que não. Diana disse, então, que ia telefonar à tia Luísa. Era com ela que desabafava quando os momentos eram pesados e tinha de procurar algum alívio. Era também o seu refúgio. Pedir-lhe-ia que a levasse. A mãe concordou.
Para além de ter curiosidade em ouvir a história do pai, queria saber também a sua opinião sobre o que ela própria tinha escrito e desenhado. Levaria o caderninho com os desenhos de plantas e bichos que observava da janela. Quando chegassem, queria que a mãe ouvisse as histórias – a do pai e a sua.
Quando Diana regressou com o pai, na véspera de Natal, a mãe tinha saído. Para não voltar – dizia ela num bilhete, deixado na mesinha da entrada.
A menina olhou o pai e começou a chorar.
Nos dias seguintes, passava ainda mais tempo perto da janela, sem ver as plantas e os bichos que sempre lhe haviam prendido a atenção.
Queria ver a sua fada voltar.

 Escrevi as primeiras cinco dezenas de linhas, em 2010,
num ateliê de escrita, em Serralves.
O objetivo era escrever uma história de Natal. 
Cada participante teria de continuar o texto 
que havia sido escrito pelo colega anterior.

Nunca cheguei a ver a estória completa. E tenho pena.
Hoje dei um final à parte que eu havia iniciado.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

ESCREVER

 Irene Lisboa nasceu a 25/12/1892
 e morreu a 25/11/1958, há 56 anos.
(Imagem enviada pela Poetria)
Se eu pudesse havia de transformar as palavras em clava.
Havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante, sem música.
Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria.
Para quê todo este artifício da composição sintáctica e métrica?
Para quê o arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras, pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo.
Vejo, admiro, desejo?
Ou sim ou não.
E como isto continuando.

E gostava para as infinitamente delicadas coisas do espírito…
Quais, mas quais?
Gostava, em oposição com a braveza do jogo da pedrada, do tal ataque às
coisas certas e negadas…
Gostava de escrever com um fio de água.
Um fio que nada traçasse.
Fino e sem cor, medroso.

Ó infinitamente delicadas coisas do espírito!
Amor que se não tem, se julga ter.
Desejo dispersivo.
Vagos sofrimentos.
Ideias sem contorno.
Apreços e gostos fugitivos.
Ai! o fio da água, o próprio fio da água sobre vós passaria,
transparentemente?
Ou vos seguiria humilde e tranquilo?
Irene Lisboa

domingo, 23 de novembro de 2014

Mas que as há...


Imagem enviada por AV


Hoje, ao passar numa estrada com árvores de cores outonais, pensei que gostava de saber pintar.
Os amarelos, os ocres, os castanhos, os vermelhos, os verdes estavam lá todos.
Ou então, gostaria de saber reuni-las em versos ou em frases em que tantas tonalidades não ficassem sombrias.
Agora, abro o computador e vejo esta imagem.
Afinal, há coincidências?
Não sei, mas que há cores fabulosas nas árvores há!