quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Onde está a polícia? Fui apanhada por ladrões!



Há mais de uma dezena de anos, pedi recibos verdes às Finanças. Preenchi todos os documentos que me impuseram. O tempo foi passando. O trabalho foi bastante (embora poucas as tarefas), mas o dinheiro que ganhei foi pouco. Porém, não é esse o problema que agora me preocupa.

Apesar de ter feito sempre todos os meus descontos e pago todos os meus impostos, recebi há alguns meses uma carta comunicando-me que devia ao Estado uns milhares de euros – mais do que o que ganhei em todo o tempo em que usei os recibos verdes – por, alegadamente, não ter feito descontos para a Caixa Geral de Aposentações.
Como sou professora, perguntei várias vezes: “Então não há cruzamento de dados”?

Pedi ajuda, pus-me a caminho e entreguei todos os comprovativos como sempre havia descontado para a CGA, aliás, como acontece com todos os docentes.
Enquanto esperava pela resposta, ia perguntando se o pedido havia sido deferido ou não.. Na Segurança Social, ouvi: “Isso não é nada connosco, mas são coisas que demoram muito tempo”.
Nas Finanças: “Isso não é nada connosco, mas são coisas que demoram muito tempo”.
Na Caixa Geral de Aposentações: “Tem de esperar. A resposta seguirá por carta. Estas coisas demoram muito tempo”.

Hoje, soube que em algumas destas situações estão a ser penhoradas, silenciosamente,  contas bancárias.
E, estou mesmo a ver, vou ter de pagar de novo uma conta que já paguei. E como eu outros haverá.
E agora pergunto: para quem vai este dinheiro, uma vez que a política é roubar aos fracos para dar aos fortes?!

A que estado chegou o estado deste país! A verborreia monocórdica da ministra das finanças causa repulsa, porque o que afirma agora com veemência inexpressiva nega depois com o mesmo tom de voz e igual cara de pau.
O estado anda a espreitar os bolsos de cidadãos honestos e desprevenidos. Com os outros nem se metem porque sabem que daí não levam nada. E até lhes dão milhões.

E o pior é que com este sobressalto todo de valores humanos nem se sabe se se pode confiar no polícia ou, pura e simplesmente, dar logo o dinheiro ao ladrão!

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Durão é excêntrico

Não parece muito, pois não?  Foi sempre obediente e fiel. Aos mais poderosos do mundo, é claro. Aceitou todos os cortes impostos a milhões de europeus. E aceitou outros não cortes a muitos, por vontade de poucos.
Nunca deve ter jogado no Euromilhões porque, mesmo sem jogar, teria um prémio que faria dele um dos excêntricos da Europa.
Claro que o homem teve de governar uma Europa zangada e em crise económica. Nem duvido que tenha tentado fazer o seu melhor, porque fazia parte do grupo de políticos bons alunos que sorriem muito quando estão entre os que mandam fazer os trabalhos de casa, embora nem sempre os façam.
O facto de ter desertado do país, deixando-o em maus lençóis, ou melhor, de tanga deve-lhe ter tirado o sono, acredito, apesar de quase todos os políticos dizerem sempre que estão de consciência tranquila e que dormem bem.
Pois, o dr Durão Barroso, segundo os jornais de hoje, vai ter na sua conta, mensalmente, muitos milhares de euros. Mesmo que coma cherne todos os dias, a conta continuará a aumentar chorudamente. E de certeza que não haverá BES nenhum que lho tire. E havemos de vê-lo, com ar sério e sentido de estado, como alguns, de peito feito, gostam de dizer, em congressos, em conferências, em programas de televisão… a ensinar como se deve fazer para se viver sem ser excêntrico.
Felizmente não se vai candidatar a presidente da República. Para excêntrico já basta assim.

domingo, 26 de outubro de 2014

Há gostos que não mudam


Há muitos anos que gosto de ouvir Pedro Barroso. Embora não o oiça com muita regularidade, o meu prazer em ouvi-lo mantém-se.
Hoje – que bom o dia durar mais uma hora – pus-me a arrumar CDs que há muito esperavam por vizinhanças menos poeirentas e menos apertadas.
E dei de caras, ou melhor, de mãos com um CD muito velhinho de Pedro Barroso, intitulado longe d’aqui. 
Quis partilhá-lo aqui, mas não consegui.
Vejo que o comprei ainda o euro não nos tinha tocado as mãos dos portugueses. Custou 2300$, a confiar na etiqueta com o preço que o CD ainda conserva.
Quis ouvir as músicas que o disco comunica. Comecei pela primeira: “Prefácio”.
Na minha opinião, também a que partilho agora é uma boa música para começar um domingo com mais uma hora dentro.


sábado, 25 de outubro de 2014

Instantâneos de hoje



A mão-cheia de anos
O menino chegou, pela mão, com a mãe. Os dois vinham risonhos. Pelo caminho, teriam falado da festinha de anos já preparada em casa.
A mãe vinha arranjar o cabelo para ficar mais bonita.
O menino, pelo caminho, se alguém conhecido parava para falar com eles, logo dizia: “Eu hoje faço anos”.
E como o menino sorria ao falar do seu aniversário, os adultos também. Ou vice-versa, não sei.
Quando chegaram ao cabeleireiro, logo o menino ouviu a pergunta, depois de ter imediatamente dito que fazia anos:
- Parabéns. Quantos anos fazes?
O menino, levantando uma das mãos, disse:
- Cinco.
E logo acrescentou:
- Quando tiver outra mão-cheia, faço dez!


Vida ou morte
Duas amigas encontraram-se. Nenhuma delas era nova, mas uma era bem mais nova do que a outra. Há muito que não se encontravam. Haviam ficado amigas na Faculdade. Ambas gostavam de livros.
A amiga mais velha, de saúde bastante debilitada, seguia o caminho apoiada pela mais nova. Esta perguntou-lhe a uma determinada altura:
- Mas continuas a escrever?
E logo a amiga mais velha respondeu:
- Claro, se eu não lesse nem escrevesse, já tinha morrido.


Entusiasmo? Sim, conheço!
Num almoço, duas professoras, perto da idade da reforma, iam conversando sobre a vida na escola.
- Pois, eu podia pedir a reforma, mas o tombo da penalização é muito grande – disse a mais nova.
- Essa hipótese é-me completamente vedada. Terei de trabalhar até aos sessenta e seis anos, porque, aos cinquenta e cinco, faltavam-me dois meses para completar trinta anos de serviço.
- Por apenas dois meses?
- Sim, é o que manda a legislação.
- Apesar de tudo, ainda bem que continuo a ter ideias e a concretizá-las com entusiasmo com os meus alunos – continuou a mais nova.
- Que bom ouvir isso. É que, felizmente, ainda sinto o mesmo, apesar de ser mais velha do que tu.
E falaram da alegria que sentem com os textos que os alunos escrevem para o jornal da escola, para o concurso de contos…
Concluíram, porém, que o mesmo não se passará com os professores que têm turmas difíceis – pelo comportamento dos alunos e dos pais – ou que, no mesmo dia ou na mesma semana, são colocados numa escola e logo retirados  por uma cratinice ou casanovice sem aparente nem clara solução.







quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Presente



Abro a janela alta. Entra a luz da tarde. Não forte, porque é outono. Entram os ruídos: dos cães a ladrar, dos carros que passam depressa, das motas que parecem riscar o pavimento, das pessoas que contam o que lhes vai na alma enquanto caminham…
Nas janelas que avisto bate a luz do sol. Algumas estão fechadas. Já não vejo as mulheres que, domésticas, faziam da luz do dia um frenesim de lavagem de roupas, de limpezas gerais das casas, de confeção de comidas donde sobressaía o estrugido bem puxado…
Já não as vejo, porque passam mais tempo sentadas, embora ainda lavem, cozinhem, costurem… A diferença é que falam menos e também falam menos com elas.
Talvez espreitem a vida cá fora pelas janelas semi-fechadas para que não entre demasiado calor. A idade rejeita os excessos, o muito, o demasiado…
Conservo a janela aberta. Vejo os telhados. E nenhum é já de vidro.