quarta-feira, 24 de junho de 2015

Li e gostei

"O alho porro é mais velho do que o S. João. E protege da inveja e do mau olhado


A tradição do alho porro é anterior à era cristã. Um ritual pagão que, como muitos outros, foi “reciclado” na celebração popular do São João para venerar o solstício de verão

Os martelinhos de plástico tão em voga na noite de S. João têm pouco préstimo para espantar o mau olhado. Já o alho porro é proteção garantida contra pragas e invejas. Se vai passar o São João no Porto esta noite, e mesmo que não seja supersticioso, é melhor respeitar esta tradição milenar na noite de grande folia para os habitantes da cidade nortenha e muitos outros cidadãos do mundo.
A história do alho porro é anterior à era cristã e as fogueiras de São João cruzam fronteiras. Ao contrário do que muitos julgam, há festas populares e fogueiras de São João de Florença ao Brasil. A tradição repete-se um pouco por todo o mundo cristão, que nalgum momento da sua história se cruzou ou herdou o legado da presença celta. 
Os celtas, essas gentes que fundaram o primeiro burgo que haveria de dar origem à povoação romana de Portus Cale [o berço do Condado Portucalense], eram politeístas e correram boa parte da Europa antes de Cristo ter nascido na Galileia. Por isso, não queriam saber da festa de São João para nada. Mas celebravam com pompa e circunstância o Solstício de Verão, que quase coincide no calendário com o dia do santo.
Nessa grande festa de homenagem à Deusa-Mãe Natureza, os celtas faziam fogueiras e ofereciam ervas aromáticas à divindade. Os festejos de S. João [como os de muitos outros santos cristãos] recuperaram este ritual pagão.
As ervas aromáticas que são queimadas variam consoante a latitude do globo - o alho porro pode ser substituído pela alcachofra -, mas a origem do ritual tem um fim comum: espantar o mau olhado, garantir proteção para o ano inteiro e homenagear a fecundidade dos seres humanos e culturas. Tudo em honra da grande Deusa-Mãe: a Natureza que tudo nos dá e garante a sobrevivência das espécies.
Nas fogueiras queimavam-se ervas aromáticas em "louvor do fogo", esse elemento tão necessário à vida quotidiana, lembra o jornalista e estudioso da cidade do Porto Germano Silva.
O tempo foi passando e por cá adotámos o aroma dos manjericos. São João e Santo António partilham a cheirosa planta que abençoa os amores, ou seja, a fecundidade. A carga fálica que mais tarde surgiu associada aos manjericos surge "com a quadra que os acompanha. É a quadra que tem a mensagem que quem oferece o manjerico quer transmitir", explica Germano Silva.
"No século XIX havia muitos terrenos abandonados à volta do Porto onde o alho porro crescia a eito. Na noite de São João, as pessoas colhiam um alho porro e batiam com ele na cabeça daqueles com quem se cruzavam. Era uma forma de saudação, de cumprimento", diz Germano Silva. "Foram as rusgas (canções populares) que lhe deram uma conotação fálica, mas isso é secundário."
Para quem não saiba o que é um alho porro, é o mesmo que o alho francês que consumimos na nossa alimentação; o que se usa para a noite do santo está espigado.
Com o tempo e a industrialização, o alho porro tem sido progressivamente substituído pelo martelinho de plástico. Mas pelo sim pelo não, se andar esta noite pelas ruas do Porto, o melhor é levar um alho porro para casa e colocá-lo atrás da porta. Não vá o Diabo ou o FMI tecer alguma para o ano que vem ...."
 Manuela Goucha Soares, in Expresso, 23 junho 2015

terça-feira, 23 de junho de 2015

Marrakech - today



Ó meu rico S. João...

S. João - Museu Machado de Castro - Coimbra


Ó meu rico S. João
Se puderes passa por cá
As mentiras são tamanhas
Que tens de vir e já

A verdade anda escondida
Por quem a sabe guardar
Uns alimentam a mentira
Outros sabem-na rodear

Ó meu rico S. João
A gente assim não se entende
Só o que uns fazem é bom
Mas a gente não compreende

Uns dizem que ela é dos outros
Sacudindo toda a culpa
E os que cometem mais erros
Nem sequer pedem desculpa

Nem tudo está mal é verdade
Mas desata alguns dos nós
O que pode ser de nós
Com tão feia falsidade?!





domingo, 21 de junho de 2015

Poetas ligados a Coimbra



Ajuda

Porque o amor é simples,
Vale a pena colhê-lo.
Nasce em qualquer degredo,
Cria-se em qualquer chão.
Anda, não tenhas medo!
Não deixes sem amor o coração!

Miguel Torga, in Diário (1945)


Amor como em Casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa. 

Manuel António Pina, in Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. 
Calma é Apenas um Pouco Tarde




Pérola solta
Sem que eu a esperasse,
Rolou aquela lágrima
No frio e na aridez da minha face.
Rolou devagarinho...,
Até à minha boca abriu caminho.
Sede! o que eu tenho é sede!
Recolhi-a nos lábios e bebi-a.
Como numa parede
Rejuvenesce a flor que a manhã orvalhou,
Na boca me cantou,
Breve como essa lágrima,
Esta breve elegia.
                             José Régio

 


FLORES PARA COIMBRA
Que mil flores desabrochem. Que mil flores
(outras nenhumas) onde amores fenecem
que mil flores floresçam onde só dores
florescem.

Que mil flores desabrochem. Que mil espadas
(outras nenhumas não)
onde mil flores com espadas são cortadas
que mil espadas floresçam em cada mão.

Que mil espadas floresçam
onde só penas são.
Antes que amores feneçam
mil flores desabrochem. E outras nenhumas não.


                                                                    Manuel Alegre