terça-feira, 31 de maio de 2016

Liberdade de escolha? De quem?

As escolas que defendem publicamente os contratos de associação têm usado slogans de uma grande emotividade e pouca consistência. Dizem, escrevem, repetem, propalam que deve haver "liberdade de escolha", e muitos põem, de facto, o slogan em prática. Muitos, isto é, direções desses estabelecimentos de ensino..
Ora, não sou nem nunca fui contra o ensino privado, Porém, se existem contratos de associação, com o recurso a dinheiros públicos, não poderão ser aplicados critérios de seleção de alunos como acontece, de forma recorrente e conhecida.
Um dia, um ex-aluno meu, do ensino público, com uma disciplina em atraso no secundário, disse-me que ia mudar de escola, porque tinha sabido de uma vaga num estabelecimento de ensino com contrato de associação. Disse-lhe que o melhor seria não contar com essa vaga. Ele, crente no concerto do mundo, manteve as expectativas. Perdeu-as, contudo, no dia em que contava fazer a inscrição. É que, para além de uma disciplina em atraso, as outras notas eram bastante baixas, o que afetaria, com certeza, o ranking escolar, porque não se antevia sucesso.
 De facto, todos conhecem casos em que a liberdade de escolha é limitada para muitos e abundante sobretudo para a direção dos colégios. Haverá, com certeza, exceções, mas não fazem a regra.
O mar amarelo, que se avistava em Lisboa na última manifestação, era composto por muitas crianças e jovens. Teriam sido consultados, respeitando a sua liberdade de escolha, para lá estarem?
Ontem, um comentador, julgo que Miguel Sousa Tavares, dizia ter desconhecido, até agora, a vasta  dimensão dos apoios do Estado a escolas privadas. Outro comentador, Luís Marques Mendes, por outro lado, dizia, no comentário do últimos domingo na SIC, que o governo devia manter os contratos de associação por mais dois anos, porque também existem muitos outros dinheiros que se gastam! Ora, isto é uma forma, embora displicente, de reconhecer que estes contratos são dispensáveis.
 A defesa da sua manutenção está a tornar-se apenas ideológica.
Outro slogan muito repetido é que o ensino ministrado nos colégios tem mais qualidade. - Imediata - acrescento eu, porque são referidos, com muita frequência, casos de grande sucesso no ensino superior, por parte de alunos que estudaram em escolas públicas.
Sem querer aumentar a cisão entre o ensino público e o privado, porque ambos merecem muito respeito, seria bom que não se perdesse tanto tempo com slogans e tiradas algo irracionais de uma só cor e em proveito próprio ou de um grupo restrito, mas que se agisse com mais sensatez, tendo em conta que "A César o que é de César".
E há tanto a fazer na Educação - tanto em escolas públicas como em privadas, apesar de já tanto se ter feito!

Maresia

         A propósito das afirmações, loucas e desrespeitosas, de José Cid
sobre os transmontanos, e que têm gerado um mar de críticas, 
lembrei-me deste texto
que postei em fevereiro de 2014. 
Partilho-o de novo.
E ando com saudades de ir a Trás-os-Montes, apesar de gostar muito do mar.

Van Gogh
Aqui estou em frente ao mar. Nunca pensei chegar até cá. Há setenta e cinco anos que vivo na minha aldeia de Trás-os-Montes. Lá nasci, lá vivi sempre e é lá que gostaria de morrer.

Quando era pequena, ouvia a minha mãe dizer que, na cidade, havia um mar de gente. E também falava do mar de água que ela dizia ficar muito muito longe. Demorava tanto a dizer a palavra que parece que ainda oiço aquele eco: looooooonnnge. Falava também do grande oceano. 
Senti sempre alguma curiosidade por saber como era o mar tão grande, assim como era o mar de gente. Nunca tive tempo nem oportunidade. Casei muito nova. Tinha a família, o campo, os animais… E também montanhas com neve ou secas pelo sol que pareciam barreiras.
Há muitos anos que os meus filhos saíram da aldeia. Foram abandonando a terra, enquanto se faziam homens. Como todas as outras pessoas mais novas e com força, foram trabalhar para longe e tudo foi morrendo aos poucos. Ficaram os velhos nas casas cada vez mais velhas e escuras. A aldeia, tal como as pessoas, envelheceu. Ficámos todos mais fracos e sós.
Os meus filhos quiseram sempre que eu conhecesse a cidade e que eu visse o mar. Acabei por vir, porque não gosto de dizer não aos meus filhos. Já bastou o tempo em que não lhes podia dar os brinquedos que pediam. O que valia é que gostavam das histórias que eu lhes contava. Olhava à minha volta e logo inventava um continho, como eu gostava de lhes dizer. Lembro-me da história do milho cor-de-rosa, da cereja-brinco-de-princesa, da castanha que gostava de apanhar sol, da geada endiabrada, da bola de trapos que se desfez antes de chegar à baliza…
Agora aqui estou em frente ao mar e só me apetece olhar e ficar calada. A luz é tão forte que mantenho os olhos quase fechados. Parece que estou numa festa, porque posso descansar e ver muita gente a passear. As pessoas não parecem ter pressa. A esta hora, se eu estivesse na minha aldeia, teria de recolher o gado e dar-lhe de comer. E acender o lume. Às vezes nem reparo nas cores do pôr-do-sol. E, no entanto, há turistas que ficam na estalagem que há na aldeia, atraídos pela paisagem do fim do dia, como se fosse íman para os seus olhos.
Agora que estou perto do mar, parece que oiço tudo melhor. E vejo melhor também. O cheiro é fresco e azul. Afinal estou a gostar de ter vindo.
O barulho das gaivotas é que parece agoirento. Parece que chamam ou gritam! Fazem-me lembrar uma rapariga da aldeia que decidiu emigrar. Dizia que não sabia como as pessoas podiam viver encarceradas entre montanhas que escondiam o céu. Algum tempo depois regressou. Deixou crescer os cabelos crespos e punha-se a cantar canções estranhas até de madrugada, à janela. As músicas falavam de um amor infeliz e de segredos nunca contados.
O mar é muito mais largo do que eu pensava. Faz muito barulho e as ondas, quando saltam, são mais altas do que os rochedos. A espuma parece neve no inverno da minha aldeia.
 Quando abro os olhos e vejo este mar cheio de luz, sinto-me pequenina. Parece que me cega. Lembro-me da minha terra que está muito distante. Não quero regressar por enquanto. O mar não pode ser visto a correr. É como os montes. Quem os olha só da estrada não os fica a conhecer nem os guarda na memória.
 Olho para o mar e parece que estou a ver e a ouvir a minha mãe. Ela, uma vez, ensinou-me uma palavra que ouvira de uma senhora da aldeia que tinha livros que lia numa casa à beira-mar. Essa palavra era maresia. Só agora a percebi melhor.
Assim como entendi a voz antiga de minha mãe.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Paisagem que se abre a contínuos olhares!


Uma belíssima ideia!

OFICINA DO LIVRO PARA CRIANÇAS A PARTIR DOS SEIS ANOS

No âmbito da próxima feira do livro “LIVROS NA REITORIA”, nas arcadas da Reitoria da Universidade do Porto, no dia 4/6/2016, vai ser realizada uma “oficina do livro” para crianças a partir dos 6 anos, pelo Serviço Educativo do Museu da Imprensa.
Esta actividade tem o livro como ponto de partida, e as crianças são desafiadas a construir livros através de técnicas simples e versáteis, de uma forma original e divertida, com dobragens e colagens, sendo a decoração e as histórias únicas e pessoais, e da inteira responsabilidade dos jovens criadores/autores.

Recursos humanos Dois monitores por oficina.
Materiais – Fornecidos pelo Museu da Imprensa.
Duração da oficina – 60 minutos (a partir das 16h)
Número máximo de participantes – 20 (vinte).
Preço – 7,50€ (IVA incluído)

DATA LIMITE PARA A INSCRIÇÃO: 27/05/2016
Contacto: 968707303

sábado, 14 de maio de 2016

Dina, Leyla, Cairo, francesinhas...

Ontem, ao fim da tarde, caminhávamos e estávamos quase a chegar à ponte D. Luís, no Porto. Em sentido contrário, vinha uma jovem. Parou junto de nós e perguntou, em inglês, como chegar à rua Santa Catarina. 
Estávamos bem longe para quem anda a pé. Entreolhámo-nos. Como seria o modo mais fácil de lá chegar? Ir pelo túnel? Não, o melhor seria, se ela quisesse, continuara a caminhada, acompanhá-la até ao Cubo e depois indicar-lhe o percurso. Logo aceitou com um sorriso de algum contentamento. Reparei, então, que era morena, magra, cabelo escuro e segurava um telemóvel na mão. Pelo caminho, fomos falando, entrecortando, de vez em quando, a conversa: como se diz em inglês? Se disser em francês, compreende? A little bit!
E, entretanto, chegámos à Ribeira. Os restaurantes, olhando o rio e o Cais de Gaia, ainda estavam quase vazios. Nos bancos, junto ao Douro, alguns casais de namorados pareciam viver a liberdade de tempo amoroso e livre. Bem perto, boiavam dois pequenos barcos.
Fomos caminhando. Qual é o seu país? Egito. Já lá foram? Não, mas conheço pessoas que estiveram lá. E gostaram? Sim, muito. Ela sorri. Acrescento que gostava de visitar o Cairo. Sim? É muito bonito e agora está mais calmo do que há uns cinco anos, continua ela. 
Perguntei-lhe o nome: Dina (talvez Dinah). Em Portugal, há muitas mulheres com esse nome. Sim? - pergunta ela com alguma admiração. E Leyla também? Não, dissemos-lhe. 
A minha filha chama-se Leyla e mostrou o telemóvel com a fotografia dos filhos. Muito bonitos - dissemos nós.
- Os seus filhos são crescidos e ainda é muito nova.
- Não, já tenho 34 anos. E abriu o sorriso moreno. As minhas amigas da minha idade já têm filhos muito mais velhos. Dissemos-lhe que atualmente há muitas mulheres em Portugal que têm filhos muito mais tarde.
E íamos caminhando. Apontámos para as Caves do Cais de Gaia. Não conhecia. Sim, do vinho do Porto já tinha ouvido falar. E depois perguntou por pratos típicos. Tinham-lhe falado de um peixe pequenino. Presumimos que fosse sardinha ou carapau.  Sim, é muito bom. Com arroz de feijão.
Passávamos junto a um restaurante, onde se podia ler que havia francesinhas. Conhece? Não. Quis saber o que havia por baixo do molho.
Chegámos ao Cubo. Parámos. Procurámos o melhor ângulo para se ver bem. E dissemos-lhe: sobe, duas ruas acima, vira à direita, vai ver a Estação de S. Bento, sobe a rua 31 de Janeiro, também à direita, e a rua perpendicular é a rua Santa Catarina. 
Isto tudo com muitos movimentos de mãos para suprir o que não se sabia explicar bem em inglês.
Passe uns bons dias no Porto.
E ela, olhando-nos, disse, em português: Obrigada, com um sorriso mais aberto do que no início.


sexta-feira, 13 de maio de 2016

COMPOTA DE AMEIXAS COM CHÁ E CHEIROS


 Já não é a primeira vez que partilho, aqui, esta "receita". 
Na verdade, nunca a fiz. Interessou-me mais pelo sabor da escrita do texto,
 apesar da sua simplicidade, do que a compota em si. 
Quando tiver ameixas no meu quintal, tentarei fazê-la.
Mas, claro, não a darei à vizinha. Se não gosta de ameixas!

Não sei se vem a propósito, mas ainda não vi cerejas à venda este ano!


Ingredientes:
500 g de ameixas frescas e maduras
Um bule de chá com açúcar
Quatro colheres, das de sopa, de rum
Algum tempo, muito afeto
Acessórios essenciais: uma cesta, ervas aromáticas, um bloco, uma caneta, luz do Sol

Se tiver quintal, percorra-o pela manhã. Lá pelo meio de uma manhã de Sol. Esqueça as ervas daninhas e tudo o que houver de mais rasteiro. Os olhos devem ser levantados para além da sua cabeça, junto das ameixoeiras. Use as duas mãos que ajudarão na procura de ameixas rijas e maduras. Não importa a tonalidade. Podem ser brancas, rosadas ou vermelhas. Tenha consigo uma cesta. No fundo, pode pôr hortelã-pimenta, alecrim, manjericão, lúcia-lima, erva cidreira… Colha os frutos ainda com algumas folhas. Utilize uma tesoura pequena de poda. Usada mas não enferrujada.
Se não tiver árvores de fruto, procure as ameixas num mercado tradicional. Se a vendedeira quiser aldrabar no preço, é por uma boa causa. Porém, não deixe de regatear. E de escolher os frutos bem frescos, perfumados, coloridos.
Chegando à cozinha, ponha a cesta – mesmo que vá ao mercado, prefira-a ao saco de plástico – sobre a mesa. Retenha as cores e os aromas. Pode até fotografar e registar, por escrito, as suas impressões, porque a memória muitas vezes é curta; as imagens amontoam-se, esbatem-se, apagam-se.

Utilize um bloco que tenha comprado numa viagem com momentos de luz e descoberta. Ponha-o sobre a mesa e vá escrevendo frases soltas. Poderá reutilizá-las, recortando-as e colando-as no frasco. Evite tapar os frutos.
Não desligue o telefone nem o ponha em silêncio. Se alguém telefonar, partilhe o momento.
Lave depois as ameixas, já sem pé nem folhas. Faça-o numa vasilha grande, sem pressa, mexendo os frutos delicada e amorosamente.
Ao lado, tenha outra vasilha. Antiga de preferência. Que lhe traga boas recordações de alguém que gostava de si, que se preocupava consigo, que lhe mostrava sempre um sorriso e que também contava histórias doces.
Misture e ajeite bem as ameixas nessa vasilha. Sobre elas, deite devagar o chá. Use um bule que viu sobre a mesa em dias de festa ou em momentos felizes. Cubra todas as ameixas, independentemente da forma ou do conteúdo. Ponha a tigela num sítio fresco e tranquilo da cozinha. Dê-lhe espaço e visibilidade. Vá à arca e procure uma toalha de estopa ou de linho. Pode ser grossa e enrugada. Aconchegue-a sob a malga. Deixe repousar durante a tarde e noite. Aproveite o silêncio aromatizado para escrever mais longamente.
No dia seguinte, levante-se cedo. Abra a janela. Espreguice-se, esquecendo que a vizinha é madrugadora e curiosa. 
Já na cozinha, escorra as ameixas e passe-as para uma compoteira transparente. O rum irá para o lume com um pouco de açúcar e a calda que ficou. Logo que tome ponto, deite-a sobre as ameixas, deixando macerar duas horas. Coloque a compoteira num sítio onde dê o Sol. Vá rodando o frasco para iluminar todos os frutos e poder observá-los melhor na sua unidade e diferença. Saboreie o momento. Guarde a cesta.
Por fim, ofereça as ervas aromáticas à vizinha. Ela disse um dia que não gostava de ameixas.



quinta-feira, 12 de maio de 2016

Rui Veloso - A Paixão

Sete Anos de Pastor Jacob servia


Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando se com vê la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,
dizendo:-Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.


Luís de Camões

segunda-feira, 9 de maio de 2016

No metro de Londres

Olhar 1
O varão e o telemóvel
Uma adolescente entra no metro com a mãe. A mesma cor de cabelo e de pele. Na carruagem, há poucos passageiros. Ambas são altas. A mãe entra a escrever no telemóvel. As portas fecham-se. É anunciada a próxima estação e a mãe continua a escrever, sem levantar os olhos do pequeno ecrã.
A miúda, já mais alta do que a mãe, rodopia em torno  do varão de segurança. O metro rasga ruidosamente a escuridão dos túneis. A adolescente, de braço comprido e esticado, continua a rodopiar. A mãe mantém-se fixada no telemóvel. 
Passadas duas estações, a adolescente sai com a mãe. É quando o olhar das duas salta do varão e do telemóvel para, durante escassos segundos, em silêncio se encontrar.

Olhar 2
Um sorriso na carruagem
 O domingo em Londres estava quente. Quentíssimo. As peles mais claras entravam no metro já manchadas pelo sol. Pernas e braços despiam-se ao ar livre de um claro e quente domingo. Uma jovem mãe entrou com o seu bebé de pezinhos rechonchudos e descalços. Um rapaz subiu com a bicicleta e o rosto suadamente corado. Um par de namorados, junto à porta, colava os corpos e as bocas quentes. Dois jovens negros riam-se e gesticulavam segurando um telemóvel ligado.
Foi quando entrou uma mulher pequenina e magra, com ar oriental. Tinha o cabelo negro e escorrido, uns morenos olhos pequeninos e um sorriso desenhado nos lábios sempre que alguém a olhava. Não era nada nova, mas a presença parecia tão serena que dava frescura à carruagem. E ocupava apenas um pequenino espaço!
 


sábado, 7 de maio de 2016

"Mil beijos para a minha mãe"

Através de uma amiga, chegou-me este poema. 
Logo perguntei: posso publicá-lo no meu blogue?
Ela disse que sim. Obrigada.

Parabéns, Ana, continua a escrever, a desenhar, a pintar...
e a celebrar todas as felizes "Nascentes".
Um beijinho



 Dentro de mim o Tempo

Vulto abstracto, no absurdo do puro acaso, numa alegoria de aventureiro, carrega em si composições de luz e sombra, encerra as vozes do começo e do fim.

Como num contratempo, corado, debruça-se sobre o desalinho e discreto funde memórias, garantias da alma gravadas num horizonte de idealista.

Ilustra e ilumina com imperturbável serenidade o inabitado sentimento do instante e interpreta a interminável longa-metragem em que a lucidez o mergulhou.

Metáfora de um mestre-de-cerimónias que meticulosamente e num só movimento, mudo de mudança, com naturalidade e nervosismo nomeia a nuvem que passa como obra-prima da opressão.

Paralisado, abre os parênteses do particular e parte.

Parto, passagem para o outro lado… pássaro passional no pedestal de pedinte pelado e pedreiro. Peixe-vermelho, peregrino.

Personagem que pertence e perturba, planeta plural, polpa de porco-espinho porventura Português.

Pouco povo no prato. Precioso predador da presa que prevalece na previsível Primavera. No princípio, como principiante, priva-se de pressões. Procissões ou projecções de prolíferos progressos.

Os pronomes - propósitos de prosperidade – purificam a verdade. Quarentena de quebra-mar e solidão, queda quente no quotidiano.

Rapsódia rápida, rasga o real, receosa da recepção. Reciclável e recomendado reencontro, refinado reflexo do refugiado, que no seu reinado, reivindica o relâmpago e a relíquia.

Num repertório resfriado e repetido, retalha o reumatismo revoltado e roda…

Roda, romântico e rosé, saber e sabão. Sofre secreto e segredo de sentido – sentidos de sequência.

Silhueta simpática e singular, desenvolve sintomas sinónimos de dor.

Na soleira a solução, soltar o solúvel, a soma do sonhador que na sua soneca sopra suavidades do subconsciente.

Supérfluos superlativos de supermercado surgem em súplicas suspeitas de teimosia. Temporadas de tendas que no tempo tenso tenta. Teoria ou terapia de termas que no seu termo terno, abraçam o terreno típico e a tiracolo tocam no absoluto. Tradição ou tragédia, no trampolim, transtornos trocados, trombones e trompetes de trovoada, túnica de ultramar.

Numa ultrapassagem, a unidade, universalidade útil da vaidade. Num vaivém, valente, na vanguarda da vela e do verbo.

Verdadeiro verde, verosímil… verso com cem mil versões, vértebra do vira-lata, vistoso vocalista da vontade e do voo.

Vulto vulnerável e vulgar, a zumbir, lembra – dentro do possível – e num desfecho desesperado, as suas memórias descuidadas e a descolar.

Completo o quadro complexo, chora e exalta - como cigarra – a origem da sua ousadia. Atlântico como o Oceano, celebra a sua nascente.

Mil beijos para a minha mãe… Ana Loureiro

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Recebi um mail, em dia de chuva, que também falava de Poesia!

Há minutos, recebi um mail com dois assuntos: 
um teste do 12º ano e Poesia.
Quem o escreveu sugeria dois versos de José Gomes Ferreira:
 "Chove...
Mas isso que importa!"
Bela sugestão! Obrigada, Dulce!

CHOVE!
Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Gomes Ferreira

domingo, 1 de maio de 2016

Por ser Dia da Mãe

Pablo Picasso - mother and child


Hoje, felizmente, já dei os parabéns à minha mãe e recebi os parabéns das minhas filhas. São momentos bons e de meigas aproximações, apesar de, também felizmente, não ocorrerem apenas na comemoração dos Dias.
As celebrações são, porém, como a necessária água que se põe nas plantas e que, ao colocá-la, se olham melhor as folhas e as cores.
Nos nossos dias, o contacto nem sempre é em presença, porque a mobilidade é um facto e o trabalho tem de ser realizado, apesar das festividades do calendário.
 O recurso ao skype é magnífico e, de facto, ajuda a encurtar as distâncias geográficas. Por isso, e logo pela manhã, fui presenteada pela mensagem de uma das minhas filhas, via skype. Vieram os parabéns, os soninhos e as comidinhas e os dentinhos e os alegres sorrisos da bebé, as notícias familiares, o tempo que faz cá e lá...
... e não dei os parabéns à minha filha. E tão carinhosa ela é com a bebé! Claro que também a olhei nos olhos daquele rosto tão bonito ainda de menina, mas, se calhar, a maior parte do tempo do nosso diálogo foi dedicado à minha neta!
Quantas vezes existem destes esquecimentos, embora o amor seja imenso!
E lembrei-me de todas as jovens que emigram e que são mães nos países de acolhimento. Longe das famílias, de amigos, de mimos da casa materna....
São como plantas que saem de um vaso aconchegado e que conseguem continuar a florir, apesar de a terra ser diferente.
Hoje estão de parabéns, porque, para além da sua profissão, essas mães seguram carinhosamente as crianças ao colo, preocupam-se com elas, brincam com elas, riem com elas. Tudo fazem todos os dias. E hoje também nada fica por fazer, apesar de ser Dia da Mãe!
Como planta que cresce naturalmente, sem cobrar qualquer lembrança!!