quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Dar nomes às coisas

A avó da Clarinha
Quando olha para os brinquedos
Dá-lhes nomes que lhe surgem
Muito simples e sem enredos

Assim é a boneca-carrapito
O peixe de boca aberta
E a Clarinha pela certa
Também achará piada
Sabendo reconhecer
Os bonecos que prefere
Bem antes de adormecer

O boneco narigudo
A bonequinha-risota
O panda que é sortudo
E o cãozinho sem casota

A bola grande do Ronaldo
A pequena dos coelhinhos
A malinha da música
E o jogo dos peixinhos

E é tão bom ver a Clarinha
Com alegria a brincar
Parece que a vida renasce
Com motivos pra celebrar

Para estar mais segura
E não meter coisas à boca
Pra que tudo corra bem
E nada aconteça de trágico
Ao quadrado onde brinca Clarinha
A avó chama-lhe mágico

E assim a avó
Nomes às coisas acrescenta
Mas tudo surge natural
O mundo torna-se melhor
Distante de qualquer mal
Parecendo que nada inventa!

domingo, 28 de agosto de 2016

Motivação à leitura


Cartaz afixado numa biblioteca pública nos arredores de Londres. 
Estava colocado numa sala destinada às crianças.

sábado, 27 de agosto de 2016

As Bibliotecas são para comer?

Pelo que conheço de Londres, existem muitos locais com atividades destinados às crianças. Parecem-me ser frequentes os concertos para os mais pequeninos que, acompanhados por um adulto, vão adquirindo hábitos musicais e  de interação com os outros.
No caso dos bebés, os adultos sentam-se em círculo com o respetivo pequerrucho e vão participando todos das músicas que se vão ouvindo ou cantando.
Num desses concertos, numa Biblioteca pública, com canções acompanhadas à viola, havia crianças até uns quatro ou cinco anos. Como nessas idades o tempo de concentração é bastante reduzido, o concerto durou pouco mais de meia hora.
A uma dada altura, uma das adultas presentes - não sei se a mãe ou nani, -  levantou-se, levando consigo um menino de uns dois anos e uma menina de uns quatro. Havia uma mesa para a leitura ou desenhos e sentaram-se os três. A jovem tirou um livro da carteira e pôs-se a ler, depois de ter colocado; à frente dos meninos, muito branquinhos e muito louros,  dois pratinhos cheios de comida que foram comendo em silêncio.
Bem perto, o músico continuava a tocar, a sorrir, a dizer pequenas frases motivadoras, a partilhar o seu gosto pelas canções que iam passando de geração em geração, como "Old Macdonald had a farm".
E, curioso, também era estranha a comida, partida aos bocadinhos, aparentemente viscosos, e toda da mesma cor. E, ainda mais curioso, os meninos comiam com a mão.

Girassóis na rua

Numa das muitas ruas sossegadas de Londres, existem árvores em pequenos canteiros quadrados, integrados nos passeios relativamente largos. Nesses canteiros, florescem pequenas flores cujas cores se conjugam com harmonia. De um desses canteiros, era ver vários girassóis bem largos na sua cor e altura.
Se alguém tivesse dúvidas sobre a rua onde se encontrava, uma vez que as casas são muito semelhanças, quando visse os girassóis, logo teria uma boa referência.
Não sei quem planta essas flores nesses espaços públicos. Se for trabalhador de qualquer autarquia, está a fazer um trabalho útil  à Comunidade; se for alguém por livre iniciativa, partilha, generosamente,  sentido estético e amor à Natureza.
Possa haver cada vez mais flores nas ruas. Que crescem sem abafar as mais pequeninas à sua volta,  todas com a sua própria cor.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

As flores na caixa

Não conhecia o nome a quem as flores se destinavam, mas havia uma semana que a caixa se encontrava naquele sítio, bem perto da porta por onde os diferentes inquilinos, que mal se conheciam, entravam e saíam. Como tinha havido um aniversário no prédio, a caixa poderia conter um presente para o aniversariante, mas não, as flores tinham outro destinatário. Se calhar, flores escolhidas com gosto e critério, mas, a avaliar pela demora em recolher a caixa, seriam para alguém que, por certo, já lá  não morava.

Para quem gostava de flores, custava imaginar um ramo a murchar sem ser olhado com olhos a sorrir e lábios felizes a agradecer.
Também quem fez o ramo devia ter pensado na melhor maneira de reunir as flores, combinando cores e carinhos.
Ninguém no prédio deslocara sequer a caixa, por curiosidade ou para libertar melhor a passagem.
Porém, toda a gente, ao passar, olhava a embalagem ali deixada. Como um velório de alguém que foi morrendo sem nunca ver apreciado o seu real perfume.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

As histórias de Clarinha

O riso da Clarinha

A Clarinha gosta de rir
Ou melhor, de a todos poder sorrir
Mas são sobretudo as crianças
Que o sorriso  lhe fazem abrir

Desde pequena que oiço
Que o sorriso é dobrado
Quando parece gargalhada
Por motivo inesperado

Mas nem sempre a Clarinha
Ri por alheias brincadeiras
parece por vezes dizer
Adultos, tenham maneiras

Assim, não ri quando se quer
Porque o sorriso não é forçado
A Clarinha tem de achar graça
Para o sorriso se ouvir dobrado

As histórias de Clarinha

Os livros e a avó

A Clarinha gosta de livros
De os abrir e folhear
Parando naquelas imagens
Que a sabem fascinar

Como  só tem um aninho
Não repara num pormenor
Que a avó gosta de os ler
Mesmo já sendo senior

E gosta de ler à Clarinha
Tantas hístórias do dia a dia
Porque o que é natural  e simples
Ensina e dá alegria

A avó da Clarinha
Olha a capa e a contracapa
Apreciando todo o trabalho
Que a tantos leitores escapa.

E a os livros de Clarinha
Quando ela vai fazer oó
Dão mais vida à prateleira
Ou são relidos pela avó

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Um garfo e o café expresso

Numa manhã de agosto, mãe e filha passaram pela confeitaria Gail - recentemente aberta em West  Hampstead, nos arredores de Londres,
Pediram café e uma fatia de bolo. Em inglês, continuando a falar entre si em língua portuguesa.Foi quando, do lado de dentro do balcão, um funcionàrio perguntou: 'querem um garfo'? Como não era habitual ouvirem falar português, só passados uns segundos as suas palavras foram assimiladas, seguidas logo de um sorriso e de um obrigada.
Após alguns dias, uma delas passou por lá outra vez na esperança de ver o mesmo funcionàrio e pedir-lhe um café bem tirado. Bem mesmo à maneira portuguesa - o pedido e o café. Só que o homem não  estava lá. Ela pediu na mesma um expresso -  sendo-lhe perguntado se era para levar ou tomar à mesa e se o café era duplo ou single.  Respondeu que era para tomar lá, que era single e deram-lhe um número para ser identificada a mesa onde iria sentar-se,
Dentro de alguns minutos, chegava um jovem funcionário com o café bem curto, bem azedo, bem morno que foi tomado em dois ou três goles. E mostrou admiração pela cliente tomar apenas o café sem comer nada. E talvez por aquele liquidozinho escuro no fundinho da pequena chávena custar duas libras.

domingo, 21 de agosto de 2016

Tal como na escrita

Em composições dos meus alunos, e não só, leio muitas vezes que se escreve para esquecer a realidade e os problemas da vida. Poderá ser, mas será sobretudo para encontrar outros caminhos e outros prazeres que enriquecem essa realidade. Tal como muitas pessoas se comprazem com outras atividades ou diversões.
Escrever é também um modo de estar só, tentando ir ao encontro dos outros.
Não sei como me surgiu esta ideia em manhâ de domingo que ainda está no início.
Talvez por ser o dia em que comummente  se busca algum relaxamento. Tal como na escrita.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

'Eating in the rain'. Or loving?

Em Londres, mesmo em dias de chuva de verão, as pessoas não deixam de tomar os seus capuccinos, lattes, sumos, etc nas esplanadas, mesmo quando estas ocupam parte de um estreito ainda que  coberto passeio. Não sei se no inverno será assim, mas penso que os ingleses nâo desperdiçam o ar livre sempre que podem.
Numa sexta- feira de agosto, um par de namorados tomava um chá com os habituais bolinhos servidos em pratos com pé. Chovia. Os pingos finos mas persistentes da chuva caíam a um meio metro. Saboreavam o chá e os docinhos amorosamente e devagar. A rua era sossegada por oposição à parte da frente da Patisserie Valerie, bem perto da zona dos museus de grandes filas, mesmo em dias de chuva quase outonal. Ao lado, sentou- se uma jovem que logo abriu uma revista folheando-a.
Como as mesas estavam muito próximas, os três começaram a falar e foram ficando, apesar de a manhã se ter despedido e a tarde ter chegado.
O par continuava aconchegado, dando as mãos, apoiando-as no ombro da pessoa amada...
Quando se despediram, sorridentes, a rapariga continuou a ler a revista, a rua manteve-se
 quase sem tränsito, mas tinha parado de chover.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Momentos Zen

A casa era pequena. Mas com várias janelas. E claraboias. Era uma casa com muita luz
A claridade da manhã entrava muito cedo  e o dia na casa também começava cedo.
Só temporariamente estava naquela casa dos arredores de Londres e gostava de chegar cedo à cozinha. Fechava a porta para não se ouvir barulho e fazia logo café que tomava numa caneca de florzinhas azuis que tirava, com cuidado e devagarinho, do armário.
E escrevia pequeninos textos quase sem história mas que eram importantes para a sua história.
Quando a casa acordava, a porta da cozinha abria-se e entravam novas luzes. Não havia tanto tempo para observar a luz que estrava livremente pela janela, mas o Céu continuava a brilhar.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Cores musicais

Nunca o detestei nem os apreciei tanto!

Pois, como quase tudo pode tocar a todos, os incêndios ontem estiveram próximos da zona onde moro. Um cenário de horror a escassas centenas de metros. E bem mais suave do que nos sítios em que os moradores aflitos veem o fogo a entrar-lhes em casa devastando tudo.
Para além da mão humana, que por loucura ajudou a atear o fogo, o vento tem sido um dos principais inimigos. E hoje sopra outra vez e de que maneira. Espalha as chamas, o fumo, o incontrolável terror. Nunca o detestei tanto.
Na tarde de ontem, as sirenes dos carros dos bombeiros ouviam-se com frequência, um helicóptero penetrava no fumo escuro do ar para apagar as chamas devoradoras. O INEM transportava  pessoas que precisavam de assistência hospitalar. 
Nunca apreciei tanto os bombeiros e as pessoas que ajudam a combater os fogos. Devem andar exaustos e não param de trabalhar  para que as populações fiquem mais sossegadas.
Enquanto uns loucos e o vento descontrolado não as desassossegam.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O mal e o bem

Turner . 1835
Pelas notícias, vamos vendo que muitos dos incêndios são provocados por mão humana e por atos individuais. Assim, um tresloucado momento de loucura leva, de repente, à perda de vidas humanas, de bens materiais e, logo, ao sofrimento e desespero.
Hoje de manhã cedo, regando a horta, senti (se calhar, de forma egoísta) como é bom ter água e não ver incêndios por perto. No entanto, o céu carregava-se de nuvens de fumo, as sirenes faziam-se ouvir e o vento, que parecia refrescante, seria o menos desejado nas zonas em que bombeiros e populações combatem arduamente as chamas.
Se atos de maldade ou de inconsciência se repercutem assim, por que não acontece o mesmo quando se pratica o bem?

Reflexos da Luz


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Cerveja da Califórnia e bolas de sabão

Chegou serena, segura e sorridente. A saia preta quase lhe cobria os pés. O rosto era muito branco, os olhos azuis e o cabelo escorrido e claro. Contrariava bastante a imagem que se tem da mulher americana. Ah; era magra e de estatura média.
Como tinha de vir em viagem de trabalho a Londres, aproveitou para visitar familiares em  Portugal.
Logo aprendeu a dizer palavras como obrigada e sim, pronunciadas com sorridente convicção.
Ficou a conhecer locais que são referência para quem visita o Porto pela primeira vez: a ponte D. Luís para uma ida às caves, uma viagem de teleférico  para ver de cima o nosso "Porto sentido", a subida no funicular dos Guindais, os Clérigos, a rua das Flores, a livraria Lello, etc.
Tudo a interessava e era motivo de olhar atento.
Num dos últimos fins de tarde, foi buscar um aparelhinho simples de plástico e pôs-se a fazer balões para os mais pequeninos da família. Era vê-los a correr e a levantar os bracitos para apanhar as redondas e efémeras transparências.
À  noite, a família bebeu cerveja da Califórnia que recebera como presente. "Sabe a café". "É boa assim fresquinha". "É pena ser tão forte"...
E todos conversaram em inglês sobre a cerveja e não só. Até sobre o desejo de que Trump não  ganhasse as eleições.
No dia seguinte, partiu de novo rumo a Londres donde seguiria para a Califórnia.
Vestia de novo a saia comprida preta.
Em três dias, deixava uma imagem de simpática verdade, de sincera simplicidade, de sábia inclusão no mundo que se vai atravessando, tantas vezes com os prazeres simples de beber um copo de cerveja ou de ver as crianças a correr atrás de bolas de sabão.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Nossa!!! Casa???

Em Mindelo, há uns bons quinze anos, quem tinha casa numa das ruas da parte Norte podia ver o mar de vários ângulos, se tivesse uma varanda.  De repente, num verão, o mar tinha desaparecido da vista dos moradores daquela rua porque nas dunas foram construídas duas grandes casas. Um grande desconsolo para quem gostava de olhar o mar a qualquer hora. 
Logo que ficaram prontas, as casas passaram a ter vozes de crianças e adultos. Também têm direito, diziam uns; escusavam era de ter invadido as dunas, comentavam outros.
Enquanto novas, as casas abriam-se sempre no verão e pressentia-se a alegre ligação ao mar que ondeava bem próximo. 
O tempo foi passando e as casas foram-se fechando, mesmo nos claros dias de verão sem vento nem neblina.
Como os muros são altos, não se vê o desgaste ferrugento que o tempo vai deixando, mas não é difícil prevê-lo. 
Para quê terem-se ocupado as dunas se estão vazias e húmidas as casas?
Um dia, apareceu uma placa numa dessas varandas que dizia; "A nossa casa".
Quem lá passa interroga-se se são as dunas, o mar ou uma casa rente ao abandono de quem a construiu e em breve a deixou.Talvez um porto mais seguro para quem deriva por muitos mares.
Um brasileiro, ao olhar a placa no edifício sobre as dunas, talvez dissesse: Nossa!!! Casa??